La Traviata: Irina, uma outra Violetta

Sábado, 24 de março, fui ver La Traviata de Verdi no Municipal de São Paulo. Baseado no romance A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, conta a história de Violetta Valéry, uma mulher transviada (traviata, em italiano), cortesã que, pela moral da sociedade, precisa renegar seu amor por Alfredo Germont.

La Traviata é uma das melhores óperas para iniciantes nessa arte assistirem. Possui um enredo encantador, de fácil entendimento, muita emoção e árias melodiosas, como a célebre Libiamo Ne’Lieti Calici.

Não sou muito fã dos minimalismos, mas a montagem do diretor Daniele Abbado foi muito bonita, sóbria, elegante e até um pouco tétrica. O mais importante: zero de obviedade para uma ópera já tão executada. A iluminação estava ótima, contribuía muito para o desenvolvimento da história. O figurino foi simples, mas de acordo com uma montagem que representa uma época contemporânea, e que tem como objetivo destacar o psicológico dos personagens: Violetta, a prostituta, vira quase virgem com seu vestido branco, em contraponto à sociedade de Paris, que deixa mostrar seu lado mais obscuro – no caráter e nas roupas. Tudo interessante, mas ainda fico alucinada com montagens como o filme de 1968 de Mario Lanfranchi com Anna Moffo: vestidos luxuosos, cenários suntuosos e cabelos super arrumados, como seria na época em que estreou, 1853.

Na noite em que eu fui, o papel principal era interpretado pela soprano russa Irina Dubrovskaya. E posso dizer que, para mim, foi um belo presente, e o maior de toda aquela noite. Irina tem uma voz lírica e doce, doce até demais para Violetta, na opinião de muitos críticos. Mas o que posso dizer é que ela foi, sim, uma fantástica e convincente Violetta. Uma Violetta diferente, que eu ainda não conhecia: uma que deixou mostrar um lado mais frágil, mais feminino. Na Violetta de Irina, sua fragilidade não está apenas na saúde física. Violetta é emocionalmente frágil e sensível como toda mulher apaixonada. É a impressão que eu tive ao ver Irina passeando à vontade pelo palco, descalça, de vestido branco e cabelos embaraçados. Encarnou a personagem, e foi impossível não se deixar emocionar com sua atuação e intensidade dramática. Tecnicamente, achei que faltou um pouco de agilidade nas coloraturas, mas talvez por tê-las feito com calma, as notas saíram corretamente. Deu para notar que o maestro ralentou um tiquinho certos trechos das coloraturas mais difíceis do primeiro ato, mas ficou clara sua admiração pela bela soprano. De qualquer forma, achei que ela foi prejudicada no segundo e no terceiro atos pela concepção cênica, que a deixava longe do público e impedia a total projeção de sua voz. E esses atos são especialmente difíceis para sopranos líricos, por serem abundantes em notas mais centrais: sua voz pode tornar-se pequena em emissões médias e graves. Mas Irina, ao contrário de Violetta, sobreviveu ao papel, sem apertos e com muitos gritos de “Brava”.

O maestro Abel Rocha foi quem salvou a platéia de um silêncio constrangedor durante a ópera. É que, depois de uma ária logo no início, um espectador espertalhão fez “shhhh” de silêncio por causa dos aplausos. Isso deve ter intimidado o público, achando que não devia aplaudir ao final da ária. Nas árias seguintes, todos ficaram quietinhos. E foi aí que o maestro começou a puxar os aplausos, reanimando e tranquilizando todo mundo. Para saber mais sobre o momento certo de aplaudir em uma ópera, veja aqui.

O tenor estava muito bem, apesar de não dar os agudos à la Pavarotti em seus tempos áureos. Mas muito afinado, muito seguro, ótima projeção e técnica. Merecem menção também o coro, a orquestra e os outros cantores da noite. Uma grata surpresa que deveria viajar para outras cidades do Brasil.

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O que a nona de Beethoven significa para mim

Abro aqui um post-parênteses para, novamente, falar de uma peça que não é ópera. Trata-se da Nona Sinfonia de Beethoven.

Hoje, no caminho para o trabalho, comecei muito bem o dia ao ouvir os primeiros acordes dessa música.

Essa sinfonia, para mim, é uma das provas da existência divina. De verdade. Ela me inspira tanta coisa que eu fico como aquelas crianças que acabaram de voltar de sua primeira excursão com a escola no zoológico e se engasgam ao contar para os pais, sem saber o que falar primeiro, de tanta novidade.

Ufa. Não quero entrar nos aspectos técnicos ou dizer como é admirável que Beethoven tenha escrito isso quando já estava surdo. É mais do que admirável. É quase inimaginável. Bem, eu acho a Nona Sinfonia de Beethoven uma peça sublime. Ao escutá-la, em especial a Ode to Joy, sinto como se cada célula do meu corpo estivesse renascendo, se enchendo de oxigênio, há uma enxurrada de adrenalina no meu coração e parece que, se não houver uma válvula de escape, tudo vai… explodir!!

Para minha felicidade, esta válvula de escape existe: é a própria sinfonia que, nota após nota, violino após violino, coro após coro, vai aliviando esta tensão em uma catarse infinita. É como cair de uma montanha russa que não acaba. É um orgasmo musical.

E cada nota, apesar de surpreendente, parece que já era esperada há muito tempo, já era conhecida. Digo não conhecida desde a infância, pois isso realmente é. Eu a conheço de algum lugar que eu não sei qual é… ah, já sei. Lembrei. Nós nos conhecemos lá naquela nossa fagulha divina, nossa porção de seres humanos que também é Deus… nós, e ela, viemos de lá. Por isso sinto que a conheço há uma eternidade.

Para mim, sinceramente, essa sinfonia representa toda a força que a gente carrega aqui dentro. Nós, seres humanos, nós, a natureza, nós, pedacinhos de Deus. É tão divino e, ao mesmo tempo, tão humano. É o trabalho de um grande homem. É aí que tenho certeza da nossa conexão com a fonte.

Ouvindo, eu quase esqueço que existe partitura. Que os músicos estão seguindo as notas. Sinto que é uma coisa só, pronta, um presente, que simplesmente acontece aos nossos ouvidos. Aliás, para mim, é essa a sensação que uma boa interpretação deve dar.

É incrível como uma combinação de notas tem o poder de causar esse turbilhão de sentimentos.

Para quem quiser ouvir, Vienna Phillarmonic com L. Bernstein. Um dos trechos que eu mais amo. É de chorar de alegria.

Abaixo-assinado para homenagem a Carlos Gomes

Recebi e estou repassando porque achei de grande valia. Há um projeto em andamento que sugere a mudança do nome do Aeroporto de Viracopos para Aeroporto Orestes Quércia. Entretanto, a petição pública sugere que a mudança seja feita para Aeroporto Maestro Carlos Gomes, em uma justíssima homenagem ao compositor campineiro que levou o nome de Campinas ao exterior.

Para quem quiser participar do abaixo-assinado, clique aqui.

Estudando nova música

Comecei ontem a estudar a ária Ombre Légère (Shadow Song), da ópera Dinorah (Le Pardon de Plöermel), de Giacomo Meyerbeer.
É uma ária que adoro, cheia de coloraturas. Nela, Dinorah, em uma cena de loucura, canta e dança com sua sombra.

Estou postando uma versão que eu adoro, que é a da Amelita Galli-Curci, feita em 1917. Aproveitem!!

A Boneca

Hoje fui na aula de canto e na próxima semana vou começar a estudar a ária da boneca, Les Oiseaux Dans La Charmille, da ópera Les Contes D’Hoffmann, de Jacques Offenbach. Estou muito feliz porque é uma ária que eu adoro!!

Já postei vídeos dessa ária aqui, mas aí vai mais um. Com a Roberta Peters, que parece um passarinho!!

Sonhei com Pas-de-Deux

Hoje eu sonhei com essa música, o Pas-de-Deux do balé The Nutcracker, de Tchaikovsky.

Apesar de não ser ópera, vou postar aqui um vídeo da Béjart Ballet Lausanne, simplesmente porque é… lindo. Com Cristine Blanc e Domenico Levrè.

Ai, que delícia.

Hoje eu mereço: Magnificat.

Magnificat, de Bach.

É uma obra composta para orquestra e cinco vozes: dois sopranos, um contralto, um tenor e um baixo.

Magnificat é um cântico de Maria, e seu texto vem do Evangelho segundo Lucas. Virgem Maria foi visitar sua prima Isabel, que estava grávida de João Batista. Após Maria saudar Isabel, João Batista se mexe na barriga da mãe. Isabel louva Maria, que então canta o Magnificat.

É uma história linda, assim como a obra que é dividida em doze partes. Abaixo, a primeira parte, cantada pelo coro: Magnificat.

Christine Schäfer, soprano
Anna Korondi, soprano
Bernarda Fink, contralto
Ian Bostridge, tenor
Christopher Maltman, barítono
Concentus Musicus Vienna, Nikolaus Harnoncourt
Arnold Schoenberg Choir, Erwin Ortner
2000, Kloster Melk Benedictine Monastery, Austria.

Hänsel und Gretel ou Francesca?

Vou tirar férias em agosto. Mês de descanso para o pessoal da ópera em várias partes do mundo. Felizmente, onde estarei alguns dias, terei duas oportunidades de assistir a belos espetáculos.

E aí vem a dúvida: preciso escolher entre ver Hänsel und Gretel no Festival de Glyndebourne, ou Francesca da Rimini, no Opera Holland Park, em Londres.

Hänsel und Gretel conta a conhecida história de João e Maria. Foi composta entre 1891 e 1892 pelo compositor alemão Engelbert Humperdinck, e teve sua estréia regida por ninguém menos que Richard Strauss. Imagino que terá uma produção rica e colorida, que juntamente com os temas inspirados em música folclórica, vão criar o clima mágico perfeito.

O tradicional Festival de Glyndebourne por si é um espetáculo, uma viagem no tempo. Lá, o costume é ir de vestido de festa, desde os curtos até os black ties. E é comum ver pessoas chiquérrimas, durante do intervalo da ópera, fazendo pic nics ao fim da tarde nos jardins ao redor do auditório, com direito a champanhe, canapés e comidinhas deliciosas. Apesar desse clima de ostentação, tudo isso quase que recria o clima da ópera em seus áureos tempos. Deve ser uma experiência inesquecível!!

Já Francesca da Rimini é uma ópera do italiano Riccardo Zandonai, estreada em 1914. Uma das mais completas óperas italianas do século XX, conta a história dessa nobre medieval que também foi retratada por Dante Alighieri em sua Divina Comédia. O papel de Francesca já foi interpretado por nomes como Magda Olivero e Renata Scotto. Será encenada no Opera Holland Park, sob tendas nos jardins, também com direito a pic nics!!

Sim, é uma dúvida, mas não cruel: qualquer uma das escolhas promete um fim de tarde de entrar para a minha história!! E, claro, comentários em setembro.

Abaixo, trechos de ambas as óperas.


Hänsel und Gretel


Francesca da Rimini

Haydn e o LHC

E aqui vai uma homenagem à primeira operação bem sucedida que ocorreu hoje com o LHC, o famoso acelerador de partículas que pretende recriar as condições do Big Bang para decifrar os mistérios do nascimento do universo. Uma homenagem na mão contrária, uma vez que trata-se de uma peça que fala sobre a criação do universo pelas mãos de Deus.

Die Schöpfung, ou A Criação, de Franz Joseph Haydn, é um oratório dividido em três partes, escrito entre 1796 e 1798, com textos extraídos do Gênesis da Bíblia e do Paraíso Perdido, de John Milton, traduzidos para o alemão por Gottfried Van Swieten.

O trecho abaixo, Mit Würd’ Und Hoheit Angethan, é o número musical 24, e compõe a segunda parte do oratório. Fala sobre a criação do homem e da mulher e, apesar de tratar de um tema bíblico, as virtudes atribuídas a Adão relacionam-se com os princípios iluministas da época. Esse número foi cantado várias vezes para Haydn antes de sua morte em 1809, como um gesto de respeito por um militar de Napoleão. Com o tenor Ian Bostridge e a London Symphony Orchestra regida por Sir Colin Davis.

Piano Improvisation no ChatRoulette

Este post não é exatamente sobre ópera, mas vale a pena. Muitos de vocês já devem conhecer o ChatRoulette, um site em que você se comunica com pessoas ao redor do mundo que você não conhece, por webcam, microfone e texto. A escolha das pessoas com quem você vai falar é randômica, de modo que você encontra desde usuários do Alaska até do Japão, de todas as idades e com os mais variados interesses. E assim que você desconecta com um usuário, outro aparece na sua janela.

Pois bem, esse cara chamado Merton resolveu usar o ChatRoulette para fazer improvisações no piano, criando músicas que falam sobre quem está do outro lado da webcam, como um repentista. O resultado ficou ótimo, dêem uma olhada.