Um belo dia para escutar Vivaldi

Hoje me peguei ouvindo o Inverno, de As Quatro Estações, de Vivaldi. E me dei conta de que hoje mesmo se inicia o inverno. Uma feliz coincidência, porque combinou direitinho essa música tão gostosa com esse tempo meio friozinho… os pizzicati (técnica de dedilhar as cordas) como se fossem as gotas de chuva que caem do outro lado da minha janela. Bem vindo, inverno!!

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A mulher de 30 anos

Não, este post não é sobre o livro de Balzac, apesar de fechar com o vídeo de uma bela ária de outro francês, Bizet.

Estou com 30 anos e não tive nenhuma crise de balzaquiana. Ao contrário, estou sentindo novas sensações. Sensações que nunca imaginei que teria, nas quais nunca parei para pensar, e que me fazem pensar nas novas sensações que terei nas próximas décadas da minha vida.

Por exemplo: aos 30 anos, pela primeira vez, estou vendo virar gente grande alguém que eu conheci ainda bebê. Parece óbvio, mas não é. Antes, eu era a criança, ou meus amigos eram crianças, ou eu tinha primos ligeiramente mais novos do que eu, mas ainda sim, crianças ou, no máximo, adolescentes. Eu nunca tinha visto alguém crescer dos 0 aos 25 anos. Hoje, nos meus 30, estou presenciando pela primeira vez o milagre da vida: uma pessoinha que conheci com pouco mais de 40 cm cresceu tanto que já virou uma pessoa adulta. É a primeira vez na minha vida que tenho o privilégio de acompanhar tal transformação.

Outro exemplo: pela primeira vez na vida, eu tenho memórias longínquas. Antes, minhas memórias eram de no máximo dez anos atrás: quanto eu tinha vinte, me lembrava de quando tinha 5 ou 10 anos. Agora, aos trinta, essas memórias ficaram tão mais longe, e nem por isso menos felizes. É engraçado dizer: há vinte anos, eu comemorei meu aniversário com meus pais e minha irmã num minigolfe. Perece que foi ontem. Mas já faz tanto tempo… essa noção de tempo é mais um presente que eu estou recebendo agora, nos meus trinta anos.

Há muitas novidades ao se ter 30 anos, mas até então todas elas eram esperadas: amadurecimento, casamento, ruguinhas de felicidade de 30 anos bem vividos. O que me pegou de surpresa foram estas agradáveis novas experiências que eu não esperava.

Fico pensando que outras agradáveis experiências de primeira viagem a vida me reserva: quando eu tiver 70 anos, estarei sentindo como é ver uma pessoinha que eu vi bebê ficar velhinha. Saberei como é ser respeitada (ou não) em filas, ônibus etc. Pela primeira vez, posso dar conselhos às amigas com a propriedade de quem já viveu bastante, e não nas suposições. E terei lembranças ainda mais longínquas, de cinquenta, sessenta anos atrás. E vou parar de tentar adivinhar quais serão minhas próximas sensações porque o legal é isso: não estar esperando por elas quando elas chegarem.

Agora, vem a parte do vídeo. É uma ária da ópera Carmen, de Bizet, cantada por um coro de crianças. Chama-se Avec La Garde Montante.

Essa ária me lembra daquela época, há vinte anos, em que tudo era menos eletrônico e mais manual. A época em que a gente construía foguetes no quintal. Em que a gente corria atrás dos pintinhos e catava amora no sítio. Jogava um boliche improvisado na garagem. Comemorava o aniversário no minigolfe. E sentava para ouvir as histórias da vovó, aquelas bem longínquas, de cinquenta, sessenta anos atrás, que um dia também vou contar aos meus netos. Não é maravilhoso que, aos oitenta, a vida ainda reserve novidades para a gente?

Avec la garde montante, nous arrivons, nous voilà!	Com a guarda em formação, chegamos, aqui vamos nós!
Sonne trompette éclatante!  Ta ra ta ta ta ra ta ta.	Soe trombeta brilhante! Ta ra ta ta ta ra ta ta.
Nous marchons la tête haute comme des petits soldats,	Nós marchamos, cabeças erguidas como pequenos soldados,
Marquant, sans faire de faute,  			Marcando, sem cometer um erro,
une, deux, marquant le pas.				Um, dois, marcando o passo.
Les épaules en arrière et la poitrine en dehors, 	Os ombros para trás e o peito para fora,
Les bras de cette manière				Os braços desta maneira
Tombant tout le long du corps.				Caindo ao longo do corpo.