Apelidos na ópera

Cantores e cantoras excelentes existem muitos. Mas, na minha opinião, quando um deles ganha um apelido, quer dizer que ele ou ela conquistou algo mais. Parece só um apelido. Mas, elogiosos ou pejorativos, indicam uma distinção, um carinho especial do público, uma entrada para o hall-da-fama-dos-maiores-cantores-de-todos-os-tempos ou, simplesmente, que não passaram despercebidos pela história do canto lírico.

Vejamos, pelos cantores da listinha que fiz abaixo. São ou não são dos melhores do mundo?

Maria Callas = La Divina
Joan Sutherland = La Stupenda
Angela Georghiu = La Cancellosa (devido aos seus costumeiros cancelamentos)
Franco Bonisolli = Il Pazzo (O Louco, por causa de sua personalidade excêntrica)
Giuseppe Di Stefano = Pippo
Montserrat Caballé = La Superba
Beverly Sills = Bubbles
Piero Cappuccilli = Principe dei Baritoni
Leyla Gencer = La Sultana (ela era turca)
Dolores Varga = La Terremoto
Carlo Bergonzi = Il Catedrático
Titta Ruffo = La Voce del Leone
Mattia Battistini = Re dei Baritoni, Baritono dei Re
Renata Tebaldi = Miss No Tickets (porque os ingressos sempre se esgotavam no Metropolitan)
Torsten Kerl = La Cotorra (porque falava até ficar sem voz, tendo que cancelar eventos)
Jussi Björling = Il Caruso Sueco
Bidu Sayão = La Piccola Brasiliana

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Estude com Callas

Maria Callas de professorinha

Imagine só ser ouvinte de uma Masterclass com a Maria Callas. Na Juillard School. Para aprender nada menos que a música que você está estudando no momento: Der Hölle Rache, a famosa ária da Rainha da Noite da ópera A Flauta Mágica. Parece impossível? Pois não é. Muita gente ainda precisa descobrir a série de vídeos do YouTube contendo as masterclasses que a diva deu na Juillard nos anos 70. Eu, no momento, estou ouvindo esta aula de A Flauta Mágica, mas há muitas outras. Maravilhoso, ela dá todas as dicas para uma interpretação à altura de… Maria Callas (se vamos chegar lá já são outros quinhentos)!!

Há, inclusive, na Amazon, o CD triplo das Masterclasses para vender aqui, novos e usados, por preços a partir de 9,99 dólares. Já encomendei o meu. Há árias de Norma, La Bohème, Medea, O Barbeiro de Sevilha e mais. Abaixo, o vídeo em duas partes (na verdade, somente áudio) da masterclass que eu falei de Der Hölle Rache.

Feliz aniversário, Schumann!!

Já faz mais de um mês que não escrevo (uia!!). Depois de um tempo de muito trabalho, aqui estou eu de volta ao blog, com um post especial: hoje faz 200 anos que nasceu o grande compositor e pianista Robert Schumann, na Alemanha.

Para homenageá-lo, estou colocando um trecho da única ópera escrita por Schumann: Genoveva. Com libreto dele próprio e de Robert Reinick, estrou em 25 de junho de 1850 no Stadttheater, em Leipzig.

Caixinha de Mozart

Uma curiosidade: fiquei sabendo pelo maestro João Maurício Galindo que Mozart, para se sustentar em certo período, teve que compor melodias para relógios e caixinhas de música. Imaginem só: mesmo com a limitação que estes objetos impoem, devem ter sido músicas lindíssimas!!

Figaro qua, Figaro là

Qual a relação entre o Fígaro de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, e o Figaro de As Bodas de Figaro, de Mozart?

Ambos são o mesmo personagem, que apareceu na “Trilogia de Figaro”, do dramaturgo francês Pierre Augustin Caron de Beaumarchais. A ópera de Mozart baseia-se na segunda peça da trilogia, chamada La Folle Journé ou Le Marriage de Fígaro. Já a de Rossini, composta 30 anos depois, baseia-se na primeira, Le Barbier de Séville.

O Conde de Almaviva é outro personagem que também aparece nas duas óperas.

Abaixo, duas árias do famoso personagem:

Non Più Andrai, de As Bodas de Figaro, numa interpretação que eu adoro do Hermann Prey.

Largo Al Factotum, de O Barbeiro de Sevilha, pelo mesmo Hermann Prey.

Vivaldi, o padre que salva

Hoje é aniversário de Antonio Vivaldi. Há 332 anos, o compositor nasceu em Veneza – para mim, um presente de Deus. Vou escrever brevemente sobre sua vida, pois acho que é sua música que merece ser o centro deste post.

Conhecido por Il Prete Rosso, por seus cabelos ruivos, Vivaldi fez parte da orquestra da Basílica de San Marco, e foi o maior vionilista do seu tempo. Tornou-se padre em 1703 e ensinou violino no orfanato Ospedale Della Pietà, sendo para as crianças que compôs grande parte de suas obras. Talvez por isso sejam cheias de graça e ternura… Mesmo sacerdote, supõe-se que tenha tido casos amorosos. E eu acredito: acho que só alguém que experimentou essas emoções seria capaz de compor o Allegro, do concerto Inverno, de As Quatro Estações, com seus delicados staccatos (articulações musicais com notas desconectadas umas das outras).

Agora, por que acho sua música tão especial? Simplesmente, porque ela me faz bem. É a música que eu ouço com um certo propósito bem especial: elevar o espírito.

Seus concertos para flauta, por exemplo. Eles nos mostram que a vida é muito mais do que aquele problema que nos aflige… que aquela dúvida que nos atormenta, que o tédio, que a dor, que qualquer coisa deste mundo… Não. A vida é aquela música de Vivaldi. Está tudo lá. É maior, é eterno… É uma música que ajuda a abrir a porta para os sentimentos fluirem e deixar nosso coração mais leve. Porque chega devagarinho, ao som de um piccolo, que é o som das asas dos anjos. E, inofensiva, quebra a nossa guarda. É como se a música de Vivaldi pegasse a nossa mão e dissesse: eu sei. E, por simplesmente saber, nos conforta e nos deixa livres para sentirmos o que quisermos.

Vou deixar aqui um vídeo de um trecho de Stabat Mater. É um poema, que Vivaldi musicou brilhantemente. Este poema fala sobre a dor de Maria durante a crucificação de Jesus. Foi escrito no século 13 por Jacopone da Todi. Sua primeira frase é Stabat Mater dolorosa, que significa Estava a Mãe dolorosa. Ouçam e vejam como Vivaldi conseguiu traduzir em notas musicais toda aquela dor… Parece até que ele mesmo estava sentindo. E, por isso mesmo, é tão confortante. É nessa hora que vemos que não estamos sós.

Quebrando vidros e madeiras

Muito se ouve sobre a capacidade que Enrico Caruso tinha de quebrar taças de cristal com sua voz, mas essa eu nunca tinha ouvido. Conversando com meu avô, ele me contou que o pai dele (meu bisavô Severino), teve a felicidade de assistir ao Caruso em sua apresentação no Theatro Municipal de São Paulo, em 1917. Pois bem, disse ele ao meu avô que, em certo momento, o tenor emitiu uma nota com tanto volume, que fez rachar a madeira do teto do teatro. Uma lasca até teria caído sobre a platéia.

A explicação física é que a voz, por ser uma onda sonora, faz as moléculas ao redor dos materiais (cristal, madeira ou qualquer outro) vibrarem em certa freqüencia. Se a nota for suficientemente volumosa e longa a ponto de chegar até o material, e combinar com a freqüência de ressonância desse material, ele vai vibrar até rachar ou quebrar.

Ainda bem que o Caruso não cantou na freqüência ressonante do lustre!!

Aniversário de Semiramide

Hoje é 3 de fevereiro, dia em que a ópera Semiramide, de Rossini, estreou em Veneza, há 187 anos (embora algumas fontes coloquem como 2 de fevereiro). Para comemorar, estou postando um vídeo da June Anderson cantando a ária Bel Raggio Lusinghier, de Semiramide.

Demais!! É uma das árias mais difíceis para soprano coloratura: notem a sequência entre 5’17” e 6’10”, como ela faz com perfeição. É tão lindo que faz passar praticamente despercebida a micro instabilidade na voz em 4’33”. Assistam e vejam como ela emociona tanto com a voz (algo que é imprescindível no bel canto), quanto na atuação.

Callas e o coro

No vídeo abaixo que eu postei da Maria Callas cantando Casta Diva, é engraçado notar uma coisa: o coro se embanana entre 3’08” e 3’18”, e então a Callas vira momentaneamente a regente do coro. Com um aceno de mão em 3’18”, coloca todo mundo de volta no tempo e entra com a voz na hora certa, sem se deixar levar pela confusão. Stupenda!!