ANNICK MASSIS NO THEATRO SÃO PEDRO: NO MELHOR ESTILO CALLAS

Foto: internet

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Neste final de semana, fui assistir à soprano coloratura francesa Annick Massis que, apesar de não ser tão famosa entre o grande público brasileiro, é dona de uma carreira sólida com apresentações frequentes nos maiores teatros do mundo, como o Scala de Milão, o Metropolitan de Nova York, Opéra Bastille em Paris e em festivais do calibre de Glyndebourne e Salzburg.

Ela se apresentou no Theatro São Pedro, em São Paulo, juntamente com a orquestra do teatro, Orthesp, regida pelo maestro convidado Jamil Maluf.

O repertório escolhido foi ousado, ao reunir músicas de estilos e épocas diferentes, como o barroco, o bel canto e o romântico italiano. E refletiu o amadurecimento da voz de Annick Massis que, apesar de ser classificada como coloratura, tem incorporado papéis para vozes mais dramáticas, como Violetta, de La Traviata (Verdi), e Donna Anna, de Don Giovanni (Mozart).

Depois de uma bela apresentação da abertura de Don Giovanni (Mozart) pela orquestra, Annick começou sua noite com Lascia Ch’io Pianga, de Rinaldo (Haendel), que, ao meu ouvir, apesar de uma interpretação emocionante, não favorecia a sua voz, que teve que contar com excessos de variações e pianíssimos em uma tentativa de dar brilho à peça. Mas, a partir daí, a noite só teria a melhorar e foi num crescendo constante até o final.

A próxima da lista foi Casta Diva, de Norma (Bellini), em que Annick conseguiu mostrar uma voz cheia de cores, segura e experiente, e com imponência tanto nos agudos quanto nos graves sustentados no peito, uma qualidade não tão comum para sopranos coloraturas, que muitas vezes não conseguem segurar o volume em notas graves de cabeça. Neste momento, tive a impressão de que ela se inspira muito em Callas, o que foi confirmado na sua interpretação de La Sonnambula, que comentarei mais adiante.

Annick continuou bem em Egli non riede ancora… Non so le tetre immagini, de Il Corsaro (Verdi), até chegar ao ponto alto da noite para muitos com a sequência È strano… È strano… Ah, fors’è lui… Sempre libera, de La Traviata (Verdi). E digo isso não somente pela popularidade e beleza das árias, mas também pela forma impecável como cantou cada nota até o gran finale de Sempre Libera com o Mi Bemol superagudo, uma nota não obrigatória, mas sempre esperada pelo público fã da ária. A nota que a fez tremer, mas que também fez tremer o público, é a prova de que Annick Massis, nos seus 53 anos, está firme e forte em toda sua vitalidade vocal, incorporando graves, mas sem perder agudos.

Depois do intervalo, ela cantou mais duas árias de La Traviata até chegar ao que considero a melhor parte do espetáculo, que foi sua interpretação de Oh, se una volta sola… Ah, non credea mirarti… Ah, non giunge, de La Sonnambula (Bellini). Nela, Annick me emocionou de verdade, mostrando conhecimento profundo da obra belcantista, com um Non Credea de tirar o fôlego, que lembrou muito o de Callas no concerto de 1965 em Paris. E um Non Giunge com direito a todas as coloraturas na segunda parte. Faltou apenas a nota aguda final, mas que certamente foi por questão de estilo, já que ficou provado que ela alcançaria até as mais altas.

A noite ficou melhor ainda quando, no bis, Annick voltou para apresentar sua versão de Je Veux Vivre, de Roméo Et Juliette (Gounod) e uma inesperada Il bel sogno di Doretta, de La Rondine (Puccini), uma das árias mais bonitas do repertório italiano.

E, falando em italiano, antes do início do espetáculo, um italiano sentado na minha frente que parecia desconhecer a cantora, comentou: “Se for ruim, a gente ouve uma e vai embora”. Ele ficou até o final do bis. Bom sinal.

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