Natalie Dessay como Violetta: Oh, Gioir!!

Todos amam a soprano coloratura Natalie Dessay interpretando personagens próprios para sua voz. Agora que ela resolveu pegar um papel mais pesado, como ela está se saindo?

Dessay fez seu debut americano no papel de Violetta, de La Traviata (Verdi), em 2009, no Santa Fe Opera Festival. Agora, na temporada 2011/2012, leva sua interpretação a grandes teatros do mundo, como o Vienna State Opera e o Metropolitan Opera de Nova York (neste último, estreou há poucos dias). Bom sinal.

Dessay é conhecida por sua voz cristalina, agudíssima, brilhante e ágil. Mas será que ela consegue suportar as exigências do segundo e terceiro atos, neste que é um dos papéis mais difíceis para sopranos, por demandar muito, técnica e dramaticamente (como já explicado no post abaixo, de La Traviata no Municipal)?

Bem, a resposta você pode ver no vídeo abaixo, que mostra trechos de Dessay como Violetta, no Festival d’Aix en Provence, em 2011:

Li muitas críticas a respeito de suas interpretações e a conclusão é a de que Violetta continua com toda a grandiosidade que merece. Sim, em algumas apresentações, sua voz pareceu cansada no segundo e terceiro atos, não totalmente encorpada. Mas tudo isso foi eclipsado pela interpretação brilhante em outros trechos, com sua voz sempre linda, “sempre libera” e luminosa, cheia de expressividade, e sua atuação impecável.

Aqui, alguns trechos de uma entrevista que ela deu para Classical TV, sobre seu novo desafio, na época da estréia em Santa Fe:

O repórter perguntou a ela por que cantar Violetta, e por que agora. Ela respondeu: “Por que agora? Eu te conto: em um certo ponto, fica tarde demais!! Você precisa de muita força e energia para este papel. Se esperar muito, você simplesmente não vai conseguir. Afinal, estou com 44 anos.” E mais: ” Por que eu deveria esconder a idade? Tenho muito orgulho dela. Passei por cirurgias nas minhas cordas vocais, passei por muita coisa, mas veja!! Eu sou uma sobrevivente, e estou em ótima forma.”

Sobre as expectativas em relação a este novo trabalho, ela diz: “Oh, eu sei, eu sei, todos estavam dizendo ‘ela não vai conseguir, sua voz é muito leve, este não é um papel de coloratura. Eu pensei exatamente a mesma coisa no início, que eu não tenho a voz certa”. Mas acabou mudando de idéia. “Eu sabia que poderia fazer do meu jeito, não do jeito que as pessoas estão acostumadas a ouvir. Você pensa ‘soprano lírico dramático’, você não pensa mais em uma soprano mais aguda. Mas no passado muitas sopranos agudíssimas interpretaram o papel e foram Violettas muito interessantes.”

Sobre se vai começar a se dedicar a papéis mais pesados, ela é prudente: “Minha voz não está escurecendo muito. As pessoas não percebem que meu repertório encolhe a cada ano. Quando você tem uma voz como a de Reneé Fleming ou Anna Netrebko ou Angela Gheorghiu, você tem tantas opções!! Mas com uma voz como a minha, você canta estes papéis mais leves por um tempo, e então fica difícil encontrar qualquer outra coisa. Eu planejo fazer Puritani antes que seja tarde demais, e talvez Giulio Cesare, mas que outros desafios eu posso ter, de verdade?

Bem, depois dessa entrevista, Giulio Cesare ela já fez. E lindamente, por sinal!! E mais uma frase que achei fantástica:

”Mas eu queria me aposentar aos 95 anos, se possível. Se eu pudesse trabalhar até 95, eu seria a mulher mais feliz do mundo.”

Se eu tivesse a sua voz, também seria, Natalie!! Agora, admiro ainda mais essa mulher!!

Você pode adquirir o DVD de La Traviata, com Natalie Dessay no papel de Violetta Valéry, no Festival d’Aix en Provence aqui.

La Traviata: Irina, uma outra Violetta

Sábado, 24 de março, fui ver La Traviata de Verdi no Municipal de São Paulo. Baseado no romance A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, conta a história de Violetta Valéry, uma mulher transviada (traviata, em italiano), cortesã que, pela moral da sociedade, precisa renegar seu amor por Alfredo Germont.

La Traviata é uma das melhores óperas para iniciantes nessa arte assistirem. Possui um enredo encantador, de fácil entendimento, muita emoção e árias melodiosas, como a célebre Libiamo Ne’Lieti Calici.

Não sou muito fã dos minimalismos, mas a montagem do diretor Daniele Abbado foi muito bonita, sóbria, elegante e até um pouco tétrica. O mais importante: zero de obviedade para uma ópera já tão executada. A iluminação estava ótima, contribuía muito para o desenvolvimento da história. O figurino foi simples, mas de acordo com uma montagem que representa uma época contemporânea, e que tem como objetivo destacar o psicológico dos personagens: Violetta, a prostituta, vira quase virgem com seu vestido branco, em contraponto à sociedade de Paris, que deixa mostrar seu lado mais obscuro – no caráter e nas roupas. Tudo interessante, mas ainda fico alucinada com montagens como o filme de 1968 de Mario Lanfranchi com Anna Moffo: vestidos luxuosos, cenários suntuosos e cabelos super arrumados, como seria na época em que estreou, 1853.

Na noite em que eu fui, o papel principal era interpretado pela soprano russa Irina Dubrovskaya. E posso dizer que, para mim, foi um belo presente, e o maior de toda aquela noite. Irina tem uma voz lírica e doce, doce até demais para Violetta, na opinião de muitos críticos. Mas o que posso dizer é que ela foi, sim, uma fantástica e convincente Violetta. Uma Violetta diferente, que eu ainda não conhecia: uma que deixou mostrar um lado mais frágil, mais feminino. Na Violetta de Irina, sua fragilidade não está apenas na saúde física. Violetta é emocionalmente frágil e sensível como toda mulher apaixonada. É a impressão que eu tive ao ver Irina passeando à vontade pelo palco, descalça, de vestido branco e cabelos embaraçados. Encarnou a personagem, e foi impossível não se deixar emocionar com sua atuação e intensidade dramática. Tecnicamente, achei que faltou um pouco de agilidade nas coloraturas, mas talvez por tê-las feito com calma, as notas saíram corretamente. Deu para notar que o maestro ralentou um tiquinho certos trechos das coloraturas mais difíceis do primeiro ato, mas ficou clara sua admiração pela bela soprano. De qualquer forma, achei que ela foi prejudicada no segundo e no terceiro atos pela concepção cênica, que a deixava longe do público e impedia a total projeção de sua voz. E esses atos são especialmente difíceis para sopranos líricos, por serem abundantes em notas mais centrais: sua voz pode tornar-se pequena em emissões médias e graves. Mas Irina, ao contrário de Violetta, sobreviveu ao papel, sem apertos e com muitos gritos de “Brava”.

O maestro Abel Rocha foi quem salvou a platéia de um silêncio constrangedor durante a ópera. É que, depois de uma ária logo no início, um espectador espertalhão fez “shhhh” de silêncio por causa dos aplausos. Isso deve ter intimidado o público, achando que não devia aplaudir ao final da ária. Nas árias seguintes, todos ficaram quietinhos. E foi aí que o maestro começou a puxar os aplausos, reanimando e tranquilizando todo mundo. Para saber mais sobre o momento certo de aplaudir em uma ópera, veja aqui.

O tenor estava muito bem, apesar de não dar os agudos à la Pavarotti em seus tempos áureos. Mas muito afinado, muito seguro, ótima projeção e técnica. Merecem menção também o coro, a orquestra e os outros cantores da noite. Uma grata surpresa que deveria viajar para outras cidades do Brasil.