Trecho de libretto do dia: I Pagliacci

Si può?… Si può?…
(Posso?… Posso?…)

Signore! Signori!… Scusatemi
se dal sol me presento. Io sono il Prologo.
(Senhoras! Senhores!… Desculpai-me
se sozinho me apresento. Eu sou o Prólogo.)

Poiché in iscena ancor le antiche maschere
mette l’autore, in parte ei vuol riprendere
le vecchie usanze, e a voi di nuovo inviami.
(Porque em cena novamente as antigas máscaras
o autor coloca, em parte ele quer recuperar
os velhos costumes, e a vós de novo me envia.

Ma non per dirvi come pria: “Le lagrime
che noi versiam son false! Degli spasimi
e de’ nostri martir non allarmatevi!”
(Mas não para dizer-vos como antes: “As lágrimas
que versamos são falsas! Com os espasmos
e com nosso martírio não vos assustais!)

No! No: L’autore ha cercato invece pingervi
uno squarcio di vida. Egli ha per massima
sol che l’artista è un uomo e che per gli uomini
scrivere ei deve. Ed al vero ispiravasi.
(Não! Não: O autor buscou ao invés pintar-vos
um vislumbre da vida. Ele tem como máximo
somente que o artista é um homem e para os homens
ele deve escrever. E inspirar-se pelo que é verdadeiro.)

Anúncios

O que a nona de Beethoven significa para mim

Abro aqui um post-parênteses para, novamente, falar de uma peça que não é ópera. Trata-se da Nona Sinfonia de Beethoven.

Hoje, no caminho para o trabalho, comecei muito bem o dia ao ouvir os primeiros acordes dessa música.

Essa sinfonia, para mim, é uma das provas da existência divina. De verdade. Ela me inspira tanta coisa que eu fico como aquelas crianças que acabaram de voltar de sua primeira excursão com a escola no zoológico e se engasgam ao contar para os pais, sem saber o que falar primeiro, de tanta novidade.

Ufa. Não quero entrar nos aspectos técnicos ou dizer como é admirável que Beethoven tenha escrito isso quando já estava surdo. É mais do que admirável. É quase inimaginável. Bem, eu acho a Nona Sinfonia de Beethoven uma peça sublime. Ao escutá-la, em especial a Ode to Joy, sinto como se cada célula do meu corpo estivesse renascendo, se enchendo de oxigênio, há uma enxurrada de adrenalina no meu coração e parece que, se não houver uma válvula de escape, tudo vai… explodir!!

Para minha felicidade, esta válvula de escape existe: é a própria sinfonia que, nota após nota, violino após violino, coro após coro, vai aliviando esta tensão em uma catarse infinita. É como cair de uma montanha russa que não acaba. É um orgasmo musical.

E cada nota, apesar de surpreendente, parece que já era esperada há muito tempo, já era conhecida. Digo não conhecida desde a infância, pois isso realmente é. Eu a conheço de algum lugar que eu não sei qual é… ah, já sei. Lembrei. Nós nos conhecemos lá naquela nossa fagulha divina, nossa porção de seres humanos que também é Deus… nós, e ela, viemos de lá. Por isso sinto que a conheço há uma eternidade.

Para mim, sinceramente, essa sinfonia representa toda a força que a gente carrega aqui dentro. Nós, seres humanos, nós, a natureza, nós, pedacinhos de Deus. É tão divino e, ao mesmo tempo, tão humano. É o trabalho de um grande homem. É aí que tenho certeza da nossa conexão com a fonte.

Ouvindo, eu quase esqueço que existe partitura. Que os músicos estão seguindo as notas. Sinto que é uma coisa só, pronta, um presente, que simplesmente acontece aos nossos ouvidos. Aliás, para mim, é essa a sensação que uma boa interpretação deve dar.

É incrível como uma combinação de notas tem o poder de causar esse turbilhão de sentimentos.

Para quem quiser ouvir, Vienna Phillarmonic com L. Bernstein. Um dos trechos que eu mais amo. É de chorar de alegria.