Anna Netrebko: um merecido sucesso

Ontem, assisti algumas entrevistas dadas pela prima donna russa Anna Netrebko, e inclusive os vídeos que fazem parte da seção Ask Anna, de seu website. E me surpreendi ao ver quão natural e simpática ela é – mas não aquela simpatia de frases e sorrisos decorados, mas sim aquela que é verdadeira, que a gente percebe que não é para nos impressionar, até porque sua voz e sua beleza já cumprem esse papel.

A Anna (depois das entrevistas, já somos quase íntimas), para mim, tem uma daquelas belezas de sopranos das décadas de 50 e 60, como as americanas Roberta Peters e Anna Moffo. É aquela beleza antiga e jovem ao mesmo tempo, de traços redondos, sobrancelhas arqueadas, olhos marcantes e um quê de nostalgia que não se explica.

Há controvérsias quanto à sua voz: alguns dizem que é magnífica, outros que não combina com bel canto, outros ainda dizem que Anna toma muita liberdade com relação às partituras. Particularmente, acho que ela tem uma belíssima voz escura, rara, com uma grande tessitura, e também acho que ela interpreta muito bem – coisa que nem todas as grandes cantoras sabem fazer.

Mas eu quero falar mesmo é de como essa moça me impressionou, no bom sentido, ao nos mostrar sua intimidade. Coloquei abaixo vários vídeos de Anna em entrevistas. Anna é uma mulher que bem poderia ser aquela nossa vizinha apaixonada por animais, ou então a dona da floricultura do bairro, ou ainda uma professora da escola de nossos filhos. De que outra diva poderíamos dizer isso? Ironicamente, ela foi faxineira do Teatro Mariinsky, em São Petesburgo, onde foi descoberta. Talvez por isso ela se mostre tão à vontade e tão próxima de nós. Não se coloca naquela figura inatingível e mítica em que muitos cantores líricos se colocam. Ela é gente de carne e osso, faz piada, gosta de música pop, vai à balada. Parece óbvio? Não se sabemos do necessário perfeccionismo que toma conta dessa área em muitos aspectos. Anna costuma aparecer chiquérrima em eventos, concertos ou programas de TV. Mas aparece sem maquiagem, de camiseta e com seus charmosos quilinhos a mais pós-gravidez nos vídeos Ask Anna, de seu site oficial. Neles, Anna responde a perguntas de fãs com a maior naturalidade, esclarecendo dúvidas como quais são seus escritores russos favoritos, quais são seus cuidados de beleza e, ainda, que canções de ninar ela canta ao seu filho Tiago, à qual ela respondeu: “Nenhuma, senão ele fica olhando para mim e não dorme.”

Anna não tem o menor problema em falar sobre críticas ou sobre possíveis pontos fracos. E é justamente isso que a torna mais humana, tão humana quanto seus personagens. Você pode comprovar isso na entrevista dada à Natalie Dessay antes de sua apresentação da cena da loucura de Lucia di Lammermoor. Vale a pena assistir também à entrevista que ela deu juntamente com Rolando Villazón, quando de sua apresentação como o par romântico de La Traviata. Adoro quando ela diz que perdeu os troféus de um prêmio que ganhou. Ao que Villazón responde: “Eu vi no eBay!” É assistir para se divertir.

Pode ser uma jogada de marketing, se mostrar como uma cantora lírica popular e acessível, em uma tentativa de agregar um público mais jovem ao mundo erudito? Pode ser, mas, imagino, só na cabeça de seus marqueteiros. Porque, para Anna, tudo é muito sincero, sem artificialismos, sem apologias a uma origem humilde. Anna é o que se mostra: uma fantástica cantora, inteligente, divertida e extremamente natural – tanto com a maquiagem pesada de uma Manon, ou de rosto lavado.

 

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Temporada 2011-2012 do Met

Vamos dar uma olhadinha na Temporada 2011-2012 do Metropolitan de Nova York? Tem muita coisa boa!!!!

Eu particularmente queria muito ver Anna Bolena de Donizetti com a Anna Netrebko e a Elina Garanca, de 26 de setembro a 4 de fevereiro.

Veja aqui.