Transmissão de Il Trittico no Met

Lembram que eu escrevi que há algumas semanas assisti Il Trittico, de Puccini, no Metropolitan Opera House de Nova York? Neste domingo, às 15h, a Rádio Cultura FM vai transmitir esse mesmo espetáculo, em gravação ao vivo no Met. Quem ficou curioso, agora pode ouvir!!

20/12 (domingo), 15h
Rádio Cultura FM – 103,3 mHz

Il Trittico é uma coleção de três óperas de um ato cada, compostas por Giacomo Puccini. As óperas são Il Tabarro, Suor Angelica e Gianni Schicchi, e tiveram sua estréia no próprio Metropolitan Opera House, em dezembro de 1918.

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A magia do Si Bemol

Ontem na aula de canto fiquei tão feliz em chegar ao Si Bemol superagudo que comecei a pesquisar a nota e cheguei a fatos surpreendentes. Si Bemol é uma nota meio mística, seja Si Bemol grave, médio, agudo ou superagudo. Alguns fatos que comprovam essa constatação:

Cientistas do Museu Americano de História Natural descobriram que o Si Bemol faz jacarés urrarem. Durante a Segunda Guerra Mundial, em visita da Filarmônica de Nova York ao museu, um dos músicos tocou uma nota que irritou um jacaré. Descobriu-se que era o Si Bemol. A experiência foi repetida outras vezes, com o mesmo resultado: jacarés urrando.

Uma estação de rádio nos Estados Unidos gravou o que acontece quando alguém cantarola um Si Bemol em uma certa escada de Massachussets. Mr. Fripp estava fazendo isso ao subir a tal escada, que fica no prédio do escritório do pai dele. Até que, ao parar de cantarolar, percebeu que a nota havia escapado e estava ressoando sozinha pela escada. Alguns tentaram explicar dizendo que as paredes eram porosas e a nota ressoava em suas micro cavidades, mas a verdade é que o fato continua sem explicação. A rádio foi lá gravar e você pode ouvir o resultado aqui.

Em setembro de 2003, astrônomos do Observatório Chandra X-Ray da NASA descobriram um buraco negro que emitia ondas sonoras. O buraco negro está no conjunto de galáxias Perseus, a 250 milhões de anos luz da Terra. Andrew Fabian, do Instituto de Astronomia em Cambridge, na Inglaterra, analisou as ondas sonoras e disse que elas estão, sim, em Si Bemol. Um Si Bemol supergrave, inaudível aos humanos, pois está 57 oitavas abaixo do Dó médio (a extensão de um piano, para comparar, é de 7 oitavas). Para não haver dúvidas, o fato está descrito inclusive no site da NASA.

Existe até uma música que foi feita sobre isso. Chama-se “Have You Heard About B-Flat?”, de Josh Kurz e Shane Winter. Está, em grande parte, adivinhe: em Si Bemol.

Se tudo isso é verdade ou não (fora o da NASA que está devidamente documentado) eu não sei, só sei que quando criança eu cantava para a minha cachorra, e em uma determinada nota ela começava a latir. Hoje penso que deve ter sido Si Bemol!!

La Berganza – com direito a autógrafo


É difícil descrever o que foi estar cara a cara com a diva Teresa Berganza, segunda-feira, no Theatro São Pedro, em recital em sua homenagem.
Teresa veio ao Brasil a convite de Paulo Abrão Ésper, da Cia. Ópera São Paulo, para uma série de masterclasses com jovens cantores, que fizeram muito por merecer o privilégio. No elenco de ontem, os alunos. E a apresentação foi tão linda, que mesmo sabendo que já se tratavam de cantores profissionais, pude imaginar que suas aulas foram extremamente proveitosas. Ouvi dizer que, nas aulas, ela pegou forte na interpretação. “Prefiro trabalhar com uma voz mediana, mas com personalidade, a trabalhar com uma voz maravilhosa que não expressa nada”, disse ela. Pois bem, as vozes eram lindas, e só o fato de estar diante de uma das maiores Rosinas de todos os tempos já é inspiração o bastante para cantar com as emoções à flor da pele.

Logo antes de começar o espetáculo, aplausos. Era ela. Sim, era ela. A grande mezzo-soprano espanhola, aquela dos vídeos do YouTube, dos DVDs do Gerasom, dos LPs que marcaram gerações muito antes de os MP3 conseguirem levá-la a todo e qualquer computador. Eu mal podia acreditar. Era a Teresa Berganza, em carne, osso e sorrisos, na platéia do Theatro São Pedro. “Preciso conseguir um autógrafo” pensei, na hora.

Contidas as emoções, deu-se início ao espetáculo. Grandes interpretações seguiram-se a outras tantas. Começamos com a mezzo-soprano Mere Oliveira e sua voz centrada e poderosa interpretando Je Vous Ecris De Ma Petite Chambre, da ópera Werther (Massenet) com legatos (notas ligadas sem interrupção) tão precisos que até eu fiquei sem fôlego. Uma voz rara. Depois, o tenor Miguel Geraldi interpretou um belíssimo Don José, de Carmen (Bizet), em La Fleur Que Tu M’Avais Jetée. Randal Oliveira foi um divertido Conde de Almaviva de As Bodas de Fígaro (Mozart), em Hai Già Vinta La Causa com uma atuação à altura de sua voz. Fiquei emocionada com Marco Antonio Jordão cantando Una Furtiva Lagrima, de O Elixir do Amor (Donizetti). A ária é tão linda que não é qualquer um que convence. Mas naquela hora, realmente parecia que ele poderia morrer de amor. Depois, foi a vez de Guilherme Rosa e sua Come Un’Ape Ne’Giorni D’Aprile, de La Cenerentola (Rossini). Não é uma ária fácil, até pelas coloraturas (execução de diversas notas em uma sílaba, com muita agilidade) características da obra de Rossini, mas ele se saiu bem. Tati Helene, num vestido poderosíssimo, foi uma linda Donna Anna de Don Giovanni (Mozart), cantando Non Mi Dir com sua voz aguda e cristalina (e não é porque a conheço desde que éramos pequenininhas). Sinto um orgulho enorme dessa moça que está de malas prontas para fazer mestrado em ópera na Itália. David Marcondes surpreendeu até a vovó ao meu lado com seus graves em Eri Tu, de Un Ballo in Maschera (Verdi), e foi muito aplaudido. Por fim, mas não por último, Keila de Moraes arrasou com Adieu Forêts, de A Donzela de Orleans (Tchaikovsky). É muito bom ver jovens cantores tão profissionais, em um país em que o canto lírico não é tão difundido como em outros lugares do mundo. Uma esperança de que essa é uma arte que não vai se perder no Brasil, pois sempre teremos mercado e público (é o que eu espero).

Depois das belíssimas apresentações, chegou o momento que todos esperavam: quando Teresa Berganza subiria ao palco. Passaram um vídeo, e em seguida lá foi ela, toda sorrisos, agradecer a presença de todos e a homenagem que achou tão sincera. Ele se mostrou tão tocada que, em agradecimento, cantou Casinha Pequenina, de olhos fechados, com a mesma paixão que sempre colocou em seus personagens ao longo da vida. Ali eu percebi o que tornou Teresa, La Berganza. Eu chorei, minha mãe chorou. Acho que o teatro inteiro chorou. Não há o que pague estar lá naquele momento. Isso porque o concerto foi de graça!!

Terminado o espetáculo, corri até a coxia, antes que fechassem a porta. E em poucos segundos, lá estava eu, frente a frente com a diva, recebendo o autógrafo que está na imagem abaixo. Só eu e os cantores!! Mas eu não vendo não, tá? 😛