Sumi Jo na Sala São Paulo

Vou começar este blog com um post sobre uma noite muito especial: a apresentação da soprano coreana Sumi Jo, que cantou semana passada na Sala São Paulo.

Na minha opinião, fantástica em vários quesitos. Sempre assisti essa diva do Bel Canto em vídeos do YouTube e DVDs, até mesmo cantando as mesmas árias e canções da noite do dia 14 de setembro aqui em São Paulo. Mas, ao vivo, foi uma experiência completamente diferente.

Ela entrou deslumbrante, linda e peruésima em um vestido todo dourado, bem amarelo e brilhante. Há quem diga espalhafatoso, mas acho que a ópera é isso, um exagero de cores, sons e sentimentos.

Sumi Jo começou a apresentação com árias de óperas barrocas como Agitata da Due Venti (Griselda) e Sposa Son Disprezzata (Bajazet), ambas de Vivaldi.

A primeira, com uma coloratura super ágil e legatos precisos (guardadas as diferenças, lembrei da Cristina Deutekom).

A segunda, na minha opinião, um dos pontos altos da noite. A Sposa da Cecilia Bartoli no álbum Se Tu M’Ami sempre me impressionou, mas esta da Sumi Jo foi sensacional. Juro que caiu uma lágrima. Essa ária é uma das coisas mais lindas da música antiga. E a Sumi Jo soube perfeitamente absorver toda sensibilidade e carga emocional da música e devolvê-la em forma de notas suaves, brilhantes e suplicantes. Sem contar seus agudos, que apesar de não terem aquele volume todo como os da Natalie Dessay, saiam de uma forma tão natural e sem força, que parecia que ela estava brincando com a gente. Adoro quando a voz parece sustentada por uma linha fininha e mesmo assim segura, coisa que a Sumi Jo faz com maestria.

Se há outra coisa que a Sumi Jo conseguiu fazer muito bem, foi se comunicar com o público. Mas sem forçar, como muitos fazem. Às vezes com um olhar, um suspiro, um sorriso, a gente podia sentir que a platéia, para ela, era uma amiga daquelas com quem ela se sente bem à vontade. Ao ponto de contar segredos como o do vestido que não fechava depois do intervalo. Eu explico: quando ela voltou para a segunda parte da noite, estava com um vestido vermelho, brilhante e justíssimo. Maravilhosa. Mas, com um jeitinho todo meigo, ela virou de costas e mostrou que o ziper não fechava, talvez por estar justo demais. E emendou: “You cannot see my back”. E sempre que saia do palco, andava de costas, escoltada pelo fraque do pianista. A platéia caiu no riso e nos aplausos. Que outra cantora seria humilde ao ponto de mostrar que o vestido está com defeito? Isso seria como descer do pedestal, mas, no caso dela, fez com que subisse muitos degraus.

Adorei também sua interpretação de Caro Nome, da ópera Rigoletto, de Verdi, que ela já tinha cantado no Brasil quando veio para a encenação no Municipal, em 1998. Lascia Ch’Io Pianga (Rinaldo), de Haendel, que eu particularmente prefiro sem as ornamentações que ela fez, e Les Oiseaux Dans La Charmille, a ária da boneca da ópera Les Chantes de Hoffmann, de Offenbach, que interpretou de uma forma muito pessoal. Por sua desenvoltura na noite, eu já imaginava que ela iria gesticular como a boneca, mas não imaginava que traria um leque para abanar o pianista, nem que estenderia a nota final até perder o fôlego visivelmente de propósito, como uma boneca descontrolada. Só achei pena que muitos a aplaudiram três vezes no meio da ária achando que havia terminado, misturando-se aos psius de outros, e até durante a sustentação de uma nota sem deixá-la mostrar seu virtuosismo nessa hora. Mas, por outro lado, acho que isso pode tê-la emocionado, por ver que o povo brasileiro estava tão encantado que mal pôde esperar para aplaudi-la.

Outros dois momentos especiais para mim foram suas interpretações de Villanelle, de Eva Dell’Acqua, e La Pastorella Delle Alpi, de Rossini. Mas isso porque são canções que eu estudo com meu professor, e não é sempre que tenho uma referência desse porte, ao vivo, para me inspirar.

Senti falta apenas de È strano… Ah Forse Lui… Sempre Libera, de La Traviata, de Verdi, conforme havia sido divulgado que encerraria a noite. Mas os dois bis que ela deu (com direito a um sensualíssimo Summertime) e sua palhinha no piano (se é que se pode chamar de palhinha) foram um verdadeiro gran finale.

Não posso deixar de citar ainda o Tucca, que viabilizou a noite com o patrocínio da Norvatis, e o excelente pianista inglês Gary Matthewman, supernovo e mesmo assim experiente, que executou as obras lindamente e participou muito bonitinho das brincadeiras da Sumi Jo. Foi uma noite em que todos se divertiram. A soprano, o pianista e, principalmente, nós, que estávamos assistindo àquele grande espetáculo.

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