A pior cantora do Carnegie Hall

Florence_Foster_JenkinsDizem que as melhores vozes se apresentam no Carnegie Hall. Não na época da Florence Foster Jenkins, essa cheia de pose aí na foto.

Nascida na Pensilvânia em 1868, Florence era uma mulher riquíssima, apaixonada por música clássica. Seu sonho era cantar, mas ela era tão desafinada que seu pai se recusou a continuar pagando seus estudos de canto, quando ela ainda era criança.

Depois de grande, Florence, já dona de seu dinheiro e cantando igualmente mal, tinha que usar suas riquezas para alugar casas de espetáculo onde pudesse se apresentar. Foi nessa época que ganhou o apelido de A Diva do Grito.

Na verdade, ela acreditava que cantava bem, por isso não tinha vergonha em expor suas notas estridentes e desafinadas para o grande público. Ela cantou durante muito tempo em recitais no Hotel Ritz, e suas apresentações tornaram-se tão célebres que os ingressos começaram a ficar disputadíssimos. Ricos e famosos como Cole Porter enfrentavam filas para ver suas desafinações. E ela não tinha medo em escolher as obras mais difíceis dos maiores compositores para cantar em seus recitais, como mostra a sua versão da Rainha da Noite, de Mozart, no vídeo abaixo.

Tanto sucesso culminou na gravação de dois discos e em um convite aos 76 anos para exibir seus dotes vocais no Carnegie Hall. Os ingressos se esgotaram em poucas horas, e o concerto foi fantástico. Se ela acertou as notas, existem dúvidas. Mas que ela cantava apaixonadamente a ponto de emocionar, pelo riso ou pelas lágrimas, a sua platéia, isso ela cantava.

Mozart no comercial da Red Bull

Vocês viram o comercial da Red Bull em que o gato limpa os dentes com fio dental? É como outros filmes da Red Bull, mas gosto dele por um motivo especial. O filme mostra um gato todo feliz e satisfeito limpando os dentes, e depois revela que ele acaba de comer um pássaro que estava em uma gaiola. A trilha desse filme é a ária Der Vogelfänger bin ich ja, da ópera A Flauta Mágica, de Mozart. É a ária do Papageno, um apanhador de pássaros. No comercial, a trilha está sem a letra, somente com a melodia. E a letra diz o seguinte (traduzido do alemão):

“Eu sou o apanhador de pássaros, sim eu sou.
Sempre feliz, heidi heh hey!

Portanto eu posso ser feliz e divertido
Porque todos os pássaros são mesmo meus.”

O que combina direitinho com o gato safado sentado na poltrona. Com direito a trocadalho no final: Red Bull te dá asas.

Veja o filme. Coloquei a versão em inglês porque dá para ouvir melhor a trilha.

Afinal, o que é Bel Canto?

O bel canto foi um estilo da ópera italiana que teve seu auge no início do século XIX. Esse estilo privilegiava a beleza e o virtuosismo vocais, sendo que a dramaticidade da ópera deveria ser expressa principalmente pela voz.

No bel canto, a técnica deveria ser impecável, com emprego de legatos perfeitos e coloraturas precisas. Por isso mesmo, favorecia vozes ágeis e muito agudas como a de sopranos coloratura (ainda que estudos indiquem que, na época, muitas obras belcantistas teriam sido estreadas por mezzo-sopranos).

As óperas do bel canto ficaram esquecidas por muito tempo, até seu resgate nos anos 40 e 50 por nomes como Maria Callas, para nossa felicidade. Como eu a amo por isso!!

Voz em destaque – Sumi Jo

Sumi Jo é uma das mais importantes sopranos lírico-coloratura da atualidade. Nascida em Seul, Coréia, a cantora começou seus estudos de piano aos 4 anos, e de canto, aos 6. Estudou em seu país de origem e posteriormente se formou com honras no Conservatório da Accademia di Santa Cecilia, em Roma, cidade onde reside atualmente. Dona de uma voz doce e precisa, Sumi Jo se apresenta nas mais importantes casas de espetáculo mundo afora, e venceu importantes prêmios internacionais. Entre eles, por unanimidade, o Carlo Alberto Cappelli em Verona, aberto apenas para primeiros colocados de outros concursos. Ela já soma mais de 50 gravações, inclundo o álbum vencedor do Grammy, Die Frau Ohne Schatten, com Sir Georg Solti, para London/Decca. Em 2003, foi eleita Artista Pela Paz pela UNESCO.

Sumi Jo
Sumi Jo

Sumi Jo na Sala São Paulo

Vou começar este blog com um post sobre uma noite muito especial: a apresentação da soprano coreana Sumi Jo, que cantou semana passada na Sala São Paulo.

Na minha opinião, fantástica em vários quesitos. Sempre assisti essa diva do Bel Canto em vídeos do YouTube e DVDs, até mesmo cantando as mesmas árias e canções da noite do dia 14 de setembro aqui em São Paulo. Mas, ao vivo, foi uma experiência completamente diferente.

Ela entrou deslumbrante, linda e peruésima em um vestido todo dourado, bem amarelo e brilhante. Há quem diga espalhafatoso, mas acho que a ópera é isso, um exagero de cores, sons e sentimentos.

Sumi Jo começou a apresentação com árias de óperas barrocas como Agitata da Due Venti (Griselda) e Sposa Son Disprezzata (Bajazet), ambas de Vivaldi.

A primeira, com uma coloratura super ágil e legatos precisos (guardadas as diferenças, lembrei da Cristina Deutekom).

A segunda, na minha opinião, um dos pontos altos da noite. A Sposa da Cecilia Bartoli no álbum Se Tu M’Ami sempre me impressionou, mas esta da Sumi Jo foi sensacional. Juro que caiu uma lágrima. Essa ária é uma das coisas mais lindas da música antiga. E a Sumi Jo soube perfeitamente absorver toda sensibilidade e carga emocional da música e devolvê-la em forma de notas suaves, brilhantes e suplicantes. Sem contar seus agudos, que apesar de não terem aquele volume todo como os da Natalie Dessay, saiam de uma forma tão natural e sem força, que parecia que ela estava brincando com a gente. Adoro quando a voz parece sustentada por uma linha fininha e mesmo assim segura, coisa que a Sumi Jo faz com maestria.

Se há outra coisa que a Sumi Jo conseguiu fazer muito bem, foi se comunicar com o público. Mas sem forçar, como muitos fazem. Às vezes com um olhar, um suspiro, um sorriso, a gente podia sentir que a platéia, para ela, era uma amiga daquelas com quem ela se sente bem à vontade. Ao ponto de contar segredos como o do vestido que não fechava depois do intervalo. Eu explico: quando ela voltou para a segunda parte da noite, estava com um vestido vermelho, brilhante e justíssimo. Maravilhosa. Mas, com um jeitinho todo meigo, ela virou de costas e mostrou que o ziper não fechava, talvez por estar justo demais. E emendou: “You cannot see my back”. E sempre que saia do palco, andava de costas, escoltada pelo fraque do pianista. A platéia caiu no riso e nos aplausos. Que outra cantora seria humilde ao ponto de mostrar que o vestido está com defeito? Isso seria como descer do pedestal, mas, no caso dela, fez com que subisse muitos degraus.

Adorei também sua interpretação de Caro Nome, da ópera Rigoletto, de Verdi, que ela já tinha cantado no Brasil quando veio para a encenação no Municipal, em 1998. Lascia Ch’Io Pianga (Rinaldo), de Haendel, que eu particularmente prefiro sem as ornamentações que ela fez, e Les Oiseaux Dans La Charmille, a ária da boneca da ópera Les Chantes de Hoffmann, de Offenbach, que interpretou de uma forma muito pessoal. Por sua desenvoltura na noite, eu já imaginava que ela iria gesticular como a boneca, mas não imaginava que traria um leque para abanar o pianista, nem que estenderia a nota final até perder o fôlego visivelmente de propósito, como uma boneca descontrolada. Só achei pena que muitos a aplaudiram três vezes no meio da ária achando que havia terminado, misturando-se aos psius de outros, e até durante a sustentação de uma nota sem deixá-la mostrar seu virtuosismo nessa hora. Mas, por outro lado, acho que isso pode tê-la emocionado, por ver que o povo brasileiro estava tão encantado que mal pôde esperar para aplaudi-la.

Outros dois momentos especiais para mim foram suas interpretações de Villanelle, de Eva Dell’Acqua, e La Pastorella Delle Alpi, de Rossini. Mas isso porque são canções que eu estudo com meu professor, e não é sempre que tenho uma referência desse porte, ao vivo, para me inspirar.

Senti falta apenas de È strano… Ah Forse Lui… Sempre Libera, de La Traviata, de Verdi, conforme havia sido divulgado que encerraria a noite. Mas os dois bis que ela deu (com direito a um sensualíssimo Summertime) e sua palhinha no piano (se é que se pode chamar de palhinha) foram um verdadeiro gran finale.

Não posso deixar de citar ainda o Tucca, que viabilizou a noite com o patrocínio da Norvatis, e o excelente pianista inglês Gary Matthewman, supernovo e mesmo assim experiente, que executou as obras lindamente e participou muito bonitinho das brincadeiras da Sumi Jo. Foi uma noite em que todos se divertiram. A soprano, o pianista e, principalmente, nós, que estávamos assistindo àquele grande espetáculo.